A seis dias do segundo turno, no domingo (25), o Leste Político comparou, tema a tema, o que Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) propõem para a economia. A base são os programas registrados no TSE — o de Lula, de 84 páginas, protocolado em 8 de agosto, segundo o Congresso em Foco, e o de Flávio, "Para o Brasil Vencer o Atraso", de 76 páginas — e declarações dos candidatos e de suas equipes. Quando o programa não trata de um tema, isso é dito.
Lado a lado
Impostos (IR e consumo)
- Lula: o programa lembra que o governo isentou do IR "todos os que ganham até R$ 5.000" e aprovou a reforma do consumo, com cesta básica isenta e cashback para os mais pobres. Para o novo mandato, fala em "promoção de justiça tributária", sem detalhar mudança no IR.
- Flávio: o programa promete revisar a reforma e "reduzir o IVA, hoje projetado num dos patamares mais altos do mundo", cortar impostos sobre energia e combustíveis e acabar aos poucos com o IOF sobre câmbio. Não trata do IR; em junho, num fórum da Veja, Flávio defendeu manter a isenção até R$ 5 mil, segundo o InfoMoney.
Gastos e regra fiscal
- Lula: o programa diz que "manteremos o novo arcabouço fiscal", com "controle do aumento do gasto primário". O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, disse à Folha (13/10) que há compromisso com uma "trajetória de superávit primário de 1,5% do PIB", em 2030, segundo o jornal. Na TV Globo (15/10), Lula afirmou: "O jeito de você resolver o problema fiscal é fazer a economia ficar crescendo".
- Flávio: o programa prevê "reformulação nas atuais regras fiscais", superávits primários, limite aos gastos discricionários dos três Poderes e corte de "no mínimo 10 ministérios". Integrantes da equipe falam em ajuste de 1,5% a 2% do PIB, número que não está no programa, segundo o InfoMoney. A campanha nega cortes em benefícios sociais.
Renegociação de dívidas
- Lula: o programa promete seguir "monitorando a evolução do endividamento das famílias e das empresas". A MP do Desenrola 3.0, de setembro, autoriza a União a comprar em leilão dívidas atrasadas com desconto mínimo de 90%, segundo a Agência Câmara. Em 13/10, Lula anunciou projeto para perdoar R$ 12,6 bilhões em dívidas de MEIs com a União (Poder360). O texto, o PLP 186/2026, foi aprovado pela Câmara em 14/10 e pelo Senado em 15/10 e aguarda sanção (Agência Brasil).
- Flávio: o programa registrado não detalha um plano de renegociação; propõe fazer da Caixa o "Banco da Prosperidade". No debate da Band (18/10), prometeu: "No meu governo, a gente vai comprar a sua dívida dos bancos", com seis meses sem pagamento para pessoas físicas e um ano para empresas (Correio Braziliense).
Salário mínimo
- Lula: o programa afirma que o novo mandato "dará continuidade à política de valorização do salário mínimo", que, segundo o texto, assegurou "aumento real para o piso de remuneração todos os anos".
- Flávio: o programa registrado não trata do salário mínimo. Em entrevista à TV Globo (16/10), Flávio disse que pretende manter reajustes acima da inflação (O Tempo). A campanha nega a intenção de desvincular aposentadorias do mínimo (InfoMoney).
Emprego e escala 6x1
- Lula: o programa previa atuar no Senado pelo fim da 6x1 e pela jornada de 40 horas sem corte de salário, o que a Emenda Constitucional 141, promulgada em 16/10, estabeleceu. No mesmo dia, em Juiz de Fora (MG), Lula disse que "ninguém vai ter prejuízo com o fim da escala 6×1" (Times Brasil).
- Flávio: o programa promete "reduzir gradualmente o custo do trabalho, sem retirar direitos", contratos mais baratos para jovens e para desempregados com 50 anos ou mais e o "negociado sobre o legislado". Votou pelo fim da 6x1 em 14/10, mas disse defender "algo ainda melhor" (Metrópoles) e assinou a PEC do Trabalho Flexível, de Rogério Marinho (PL-RN), segundo o Poder360.
Inflação, juros e Banco Central
- Lula: o programa promete "criar as condições para uma redução sustentada das taxas de juros, com inflação controlada", sem tratar do Banco Central. Na TV Globo (15/10), discordou da avaliação do presidente do BC, Gabriel Galípolo, de que juros menores dependem de corte de despesas (Poder360).
- Flávio: o programa diz que, com a dívida estabilizada, os juros irão à "média internacional" e a inflação ao "centro da meta"; não trata da autonomia do BC. No debate da Band, Flávio disse que, quando assumir, os juros vão cair "de uma forma muito rápida" (Agência Estado).
Privatizações e estatais
- Lula: o programa não fala em privatizações e diz que a Petrobras "deverá retornar ao segmento de distribuição de combustíveis". No debate da Band, Lula defendeu a Petrobras estatal e criticou a privatização da Eletrobras, feita no governo Jair Bolsonaro (CartaCapital).
- Flávio: o programa promete "retomar o Programa Nacional de Desestatização com critério, avaliando caso a caso", sem listar empresas. Em 8/10, o coordenador econômico Adolfo Sachsida disse, sobre Petrobras, BB e Caixa: "Nenhuma dessas empresas será tocada" (Poder360). Em junho, Flávio disse que "os Correios têm que ser privatizados, para começar" (Revista Oeste).
Bolsa Família e programas sociais
- Lula: o programa defende "manter, aperfeiçoar e ampliar as políticas de proteção social para quem mais necessita". Decreto de 17/9 reajustou o Bolsa Família em 15%, com piso de R$ 691 desde outubro (Agência Brasil).
- Flávio: o programa promete "manter os programas sociais existentes, com aperfeiçoamento da gestão, correção de distorções e combate às fraudes". No debate da Band, Flávio disse que manterá o reajuste de 15% (Agência Estado).
Análise do Leste Político
Esta seção é opinião.
Os programas convergem mais do que a campanha sugere: ambos prometem manter o Bolsa Família e o aumento real do mínimo, e ambos apostam na compra estatal de dívidas bancárias. Falta aos dois a conta.
Lula promete juros menores com o mesmo arcabouço e mais crescimento, enquanto a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, segundo a Agência Brasil, e novos gastos e perdões seguem sendo anunciados. Flávio acerta ao ligar juros altos a gasto alto e ao mirar um IVA menor, mas promete cortar impostos e preservar benefícios sem quantificar, no programa, o ajuste que isso exige. E uma desestatização "caso a caso" que já poupa Petrobras, BB e Caixa é tímida para quem se apresenta como liberal.
Fontes: Programa de Lula (PDF), Programa de Flávio (PDF), Congresso em Foco – registro, Agência Brasil – planos, InfoMoney – Flávio, InfoMoney – fórum, Folhapress – Moretti, Poder360 – Lula, O Tempo – Flávio, Agência Câmara – Desenrola, Poder360 – MEIs, Correio Braziliense, Exame, Agência Senado, Times Brasil, Metrópoles, Poder360 – 6x1, O Povo/Agência Estado, CartaCapital, Poder360 – Sachsida, Revista Oeste, Agência Brasil – Bolsa Família, Agência Brasil – Senado aprova perdão de dívidas de MEIs
Atualização (19/10/2026): a versão anterior dizia que o perdão às dívidas de MEIs dependia do Congresso. O projeto já tinha sido aprovado pela Câmara e pelo Senado e aguarda sanção.
Fotos de arquivo: Agência Senado (CC BY 2.0) e Carlos Moura/Agência Senado (CC BY 4.0), via Wikimedia Commons, adaptadas. Arte: Leste Político.

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