O primeiro frente a frente entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) na TV, neste domingo (18), na Band, foi marcado mais pela troca de acusações pessoais do que pelas propostas. E o balanço mais curioso veio do próprio entorno do presidente: integrantes da campanha e ministros reconhecem que Lula caiu em "armadilhas" do adversário em vários momentos, segundo a coluna de Milena Teixeira no Metrópoles.
O encontro aconteceu a uma semana do segundo turno, marcado para 25 de outubro. No primeiro turno, Flávio terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Foi a primeira vez que os dois se enfrentaram na TV nesta eleição.
Os 7 momentos que marcaram o debate
1. "Você me respeita": Lulinha no centro da briga
Flávio abriu o ataque citando acusações da empresária Roberta Luchsinger que envolvem Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e o chamado "Careca do INSS". Interrompido pelo presidente, reagiu: "Você me respeita, eu tive 56 milhões de votos." Lula respondeu que o caso cabe à Polícia Federal e devolveu: "Eu não sou pai que protege o filho como você foi protegido pelo seu pai."
2. Vorcaro e o filme "Dark Horse"
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, virou munição dos dois lados. Lula cobrou de Flávio explicações sobre a relação com Vorcaro e sobre repasses ligados a "Dark Horse", filme sobre a vida de Jair Bolsonaro. Flávio não respondeu diretamente e voltou ao caso Lulinha. Depois, foi a vez de o senador cobrar o presidente sobre o mesmo personagem. Lula rebateu que a oposição "fez dele um banqueiro" e que foi a gestão dele que o colocou na prisão.
3. "Até teu pai": a resposta sobre o voto dos presos
Flávio perguntou por que, segundo ele, 73% dos presidiários votaram em Lula. A resposta do presidente: "Eu quero que votem 100%. Até teu pai." — uma alfinetada em Jair Bolsonaro. Vale lembrar que só presos provisórios, ainda sem condenação definitiva, podem votar.
4. A provocação da cadeira
Em outro momento de tensão, Flávio chamou Lula para ficar ao seu lado. O presidente recusou e disse que não queria ficar perto dele.
5. Segurança: "guerra ao narcoterrorismo" x novo ministério
No tema que abriu a noite, Flávio prometeu declarar "guerra ao narcoterrorismo", tratar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas e endurecer as penas para que chefes de facção fiquem até 80 anos presos. Também defendeu castração química para estupradores e a redução da maioridade penal para 14 anos em crimes hediondos. Lula cobrou do Congresso a aprovação da PEC da Segurança Pública e prometeu criar o Ministério da Segurança Pública.
6. Pandemia, SUS e o mea-culpa
Flávio propôs levar o "padrão Einstein" ao SUS, com prontuário eletrônico único ligado ao CPF. Lula perguntou se isso significava privatizar o sistema e lembrou as mortes na pandemia durante o governo Bolsonaro — citou 716 mil. Flávio fez um mea-culpa sobre a saúde na gestão do pai, mas disse que ele fez o melhor possível diante de uma situação inédita.
7. "Prove que é honesto" e o final no grito
Nas considerações finais, Lula repetiu o desafio para que os dois abram seus sigilos bancário e telefônico: "Ao invés de ficar falando que é honesto, prove que é honesto." A fala foi interrompida pela plateia, e a apresentadora Adriana Araújo precisou levantar a voz para pedir silêncio às duas torcidas. Flávio levou ao estúdio Tarcísio de Freitas, Sergio Moro e Deltan Dallagnol; Lula, Geraldo Alckmin, Fernando Haddad, Marina Silva e Simone Tebet.
Também teve: economia e Estados Unidos
Flávio prometeu um programa de renegociação de dívidas — com compra de débitos dos bancos, congelamento por seis meses para pessoas físicas e carência de um ano para empresas — e a criação de um "Ministério da Prosperidade". Lula defendeu o MEI, a política de salário mínimo e o Mais Médicos, e afirmou que a inflação dos alimentos caiu de 56,17% no governo anterior para 13% no atual. No bloco sobre soberania, o presidente acusou a família Bolsonaro de se submeter aos interesses americanos; Flávio negou e disse ter viajado aos EUA para defender produtos brasileiros.
E quem ganhou?
Até a publicação deste texto, não havia pesquisa quantitativa sobre o desempenho dos candidatos. No PT, a avaliação interna é dividida: aliados admitem as "armadilhas", mas apontam o desafio dos sigilos como o ponto alto de Lula e dizem que Flávio desperdiçou chances ao não responder diretamente a algumas perguntas, de acordo com o Metrópoles.
Quem saiu ganhando com certeza foi a Band. Segundo dados prévios de audiência divulgados pelo Terra, a emissora empatou com a Globo por volta das 21h e passou à frente em seguida. No YouTube, o canal de jornalismo da Band chegou a 5,4 milhões de pessoas assistindo ao mesmo tempo.
Análise do Leste Político
Esta seção é opinião.
Flávio chegou com a agenda que mais mobiliza o eleitor de direita — segurança e combate à corrupção — e conseguiu manter Lula na defensiva por boa parte da noite, algo que o próprio entorno do presidente reconhece. Lula se saiu melhor quando falou de números do governo e quando lançou o desafio dos sigilos.
Para quem defende o livre mercado, porém, o debate ficou devendo dos dois lados. A resposta-padrão continua sendo mais Estado: Lula promete um Ministério da Segurança Pública; Flávio, um Ministério da Prosperidade e um programa de compra de dívidas. Prosperidade vem de menos burocracia, imposto mais baixo e liberdade para empreender — não de mais uma pasta em Brasília. É esse o debate que o eleitor liberal ainda espera ouvir até domingo.
A Globo marcou o último debate do segundo turno para sexta-feira (23). E você, o que achou do confronto? Deixe sua opinião nos comentários.
Fontes: CNN Brasil, Jovem Pan, TV Foco, Metrópoles, Terra, Jornal do Comércio
Fotos: Agência Senado (CC BY 2.0) e Carlos Moura/Agência Senado (CC BY 4.0), via Wikimedia Commons. Montagem e arte: Leste Político.

Comentários
Postar um comentário